Os Maias – Cenas da Vida Romântica

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Antes de Os Maias – Cenas da Vida Romântica, a obra de Eça de Queirós já foi por várias vezes alvo de adaptações cinematográficas desde O Cerro dos Enforcados (1954) de Fernando Garcia, mas também dois O Crime do Padre Amaro (2002 e 2005) e um Singularidades de uma Rapariga Loura (2009), em que Manoel de Oliveira transpõe a trama oitocentista para a Lisboa da actualidade . De igual modo foram realizadas algumas adaptações televisivas, tanto em Portugal como no Brasil: a primeira adaptação referenciada d’Os Maias foi uma mini-série realizada no Brasil.
Agora foi a vez de fazer a versão nacional do romance mais emblemático do escritor português e que é de leitura obrigatória no secundário pela mão de João Botelho, realizador acostumado a adaptações de obras importantes da Literatura Portuguesa.

As dificuldades na adaptação de um romance desta envergadura para a duração habitual de uma longa-metragem são óbvias, uma vez que, a par do relato da família Maia ao longo de três gerações, com enfoque na geração da personagem principal – Carlos da Maia, nos são apresentados “Episódios da vida romântica”, como o autor refere no subtítulo da obra. Nele se faz um fresco sobre a sociedade portuguesa dos finais do século XIX, do endividamento externo, dos políticos medíocres e sabujos, dos artistas que preferem gastar a vida a conversar sobre miudezas a divulgar o seu trabalho, dos boatos e bisbilhotices, dos tablóides e dos ataques mesquinhos, das pequenas traições e pecadilhos menores (de óbvios paralelismos com a situação que se vive hoje), com uma teia interminável de personagens a povoar uma Lisboa provinciana com tiques de cosmopolitismo. Apesar das duas horas e pouco de duração do filme, João Botelho parece um pouco apressado por pretender abarcar toda a pré-história da narrativa principal , apresentada a preto-e-branco, e a dinâmica de grupo seja do grupo de personagens, seja do grupo de atores, transformando-o essencialmente um filme de actores, como o próprio realizador afirma, perdendo por esse facto.

Os Maias - Cenas da Vida Romântica

Cartaz de Os Maias – Cenas da Vida Romântica

Além da duração, a outra restrição com que João Botelho teve de lidar foi a financeira. Era impensável neste contexto económico fazer uma adaptação dos Maias que transformasse as ruas de Lisboa como se fossem as do século XIX. Numa decisão artística, o realizador optou por privilegiar o espaço interior e utilizar cenários para revestirem os exteriores. Botelho, para quem “o cinema é mentira”, preferiu acentuar assim a artificialidade do cinema e dar maior força ao texto, que segue com alguma reverência.

Para quem conhece a obra, as elipses existentes na ação causam alguma estranheza, no entanto, compreendem-se dada a complexidade da obra. Já as interpretações dos atores são de grande qualidade, com destaque para o papel sublime de Ega, por parte de Pedro Inês.
As limitações apontadas têm de ser compreendidas e só comprovam que “Os Maias” são uma obra intemporal, de palavras sábias que nunca estão em demasia e que continuam a ser de grande atualidade.

Veja o trailer:

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